Crônicas livres

Espaço para escritores e blogueiros de todos os cantos divulgar aqui suas crônicas e textos sem limite ou parcialidades.

Se algum texto não condizer com a política do jornal será deletada de imediato. Caso atente para difamação, conteúdo grosseiro, preconceitosa entre outras.

em caso de dúvidas entrar em contato com Mario, editor chefe do jornal pelo email mario@mariovicente.com.br

Boa leitura!

Crônica: A quarentena e a mulher sentada na calçada

*Por Rodrigo Alves de Carvalho

Depois de vários dias em casa devido à quarentena, Lucrécia debruçada na janela olhava a rua vazia e Orlando deitado no sofá assistia TV como faziam o dia inteiro todos os dias.

Eram aposentados. Não tiveram filhos. Lucrécia era infértil. Porém, a mulher sempre culpava Orlando que não discutia, estavam casados há mais de 40 anos e durante todo esse tempo foi assim, ele não dava mais a mínima para as queixas, reclamações, fofocas e insultos de sua esposa.

- Vem ver Orlando! Uma mulher parada na calçada do outro lado da rua em plena quarentena!

O homem continuou assistindo ao Jornal Nacional.

- Corre Orlando! A mulher sentou na calçada! O que será que está fazendo?

Orlando se reservou a prestar atenção na Renata Vasconcellos.

- Orlando, seu frouxo! E se for uma assaltante esperando o comparsa pra roubar a casa de velhinhos enclausurados?

- Vai roubar o quê? Não temos nada! – Resmungou o homem.

Lucrécia de olhos atentos falava sem parar.

- Orlando! E se for uma mulher com coronavírus esperando para invadir nossa casa e tossir em cima da gente! Não podemos deixar Orlando! Vou chamar a polícia!

- Que chamar a polícia que nada Lucrécia! Deixe a mulher em paz. Ela deve estar esperando alguém, deve ter marcado um encontro...

- Mas em frente nossa casa e a essa hora da noite Orlando? Mulher direita não fica esperando homem na calçada a essa hora da noite!

- Deixe a mulher em paz Lucrécia! Já ela vai embora.

- Não Orlando! Vai lá ver o que ela quer, se é contagiosa ou se é assaltante!

- Eu? Mas por que isso. Não sabe que não podemos sair de casa? E além disso, desde quando me intrometo na vida dos outros?

- É por isso que você é um banana Orlando! Não toma atitude, fica no sofá o dia inteiro. Você é um pateta Orlando!

Orlando então se levanta, veste o chinelo, um casaco e sai porta afora.

Lucrécia acompanhou da janela o marido chegando próximo à mulher. Conversaram um pouco. Sorriram e começaram a andar pela calçada.

Lucrécia nas pontas dos pés acompanhou o marido e a misteriosa mulher caminharem até o fim da rua, virarem a esquina e sumirem.

Até hoje Lucrécia espera Orlando voltar para saber se a mulher da calçada era uma assaltante, uma infectada, ou simplesmente alguém que também decidira jogar tudo para o alto, nesses tempos difíceis, em busca da felicidade. 

*Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.

RECEBA O NOSSO BOLETIM EM SEU E-MAIL!

--