O mundo vive uma época profundamente marcada pelo secularismo e diversidade religiosa. É sabido que os cristãos continuam sendo maioria no Brasil, mas as estatísticas mostram o aumento no número de muçulmanos, hindus, budistas e adeptos de inúmeras outras religiões, convivendo lado a lado numa sociedade cada vez mais plural. Especialistas no assunto costumam descrever a atual situação religiosa no mundo como um supermercado, onde as várias religiões coexistem numa situação de competição, cada qual com suas respostas para as inúmeras questões levantadas pelos homens. Tal conjuntura religiosa favorece o relativismo, que considera que todas as religiões são iguais e, portanto, é irrelevante escolher essa ou aquela e também o sincretismo, quando a pessoa escolhe os aspectos que mais lhe agradam das mais variadas religiões e constrói, a sua maneira, uma crença particular que resolva os seus problemas existenciais.

Dentro desse contexto, segundo a Associação Nacional de Educação Católica do Brasil, encontram-se espalhadas por todo o país cerca de 430 mantenedoras, 2 mil escolas e 130 instituições superiores voltadas para o ensino católico, que reúnem  2,5 milhões de alunos e aproximadamente 100 mil professores e funcionários. Nesse universo, cuja proposta é a educação cristã, por conta de toda a pluralidade dos dias atuais, muitos alunos vêm de famílias tradicionalmente católicas mas não praticantes, ou de famílias com outras tradições religiosas e ainda de famílias sem nenhum engajamento religioso. Muitos alunos sequer se identificam com a herança religiosa de seus pais.

“Diante de tais circunstâncias, a tendência mais óbvia para essas instituições seria dar menos ênfase aos aspectos especificamente católicos de nossas escolas e optar por um humanismo rico em valores intelectuais e culturais, reforçando o compromisso com a justiça social”, afirma Dom Bernardo Bonowitz, abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, de Campo do Tenente (PR). Apesar de óbvio, Dom Bernardo questiona se esse é mesmo o caminho. “Sem negar a importância destes valores, ceder a esta tendência não representa uma falta no cumprimento da missão de evangelização inerente à escola católica? Se as verdades do evangelho são a base da salvação humana, não é obrigatório anunciá-las? Não devemos manifestar em nosso currículo e ensino que a visão católica da realidade é o que dá coerência e significado aos valores acima citados?”, alerta o abade.

Para a supervisora pedagógica das escolas católicas do Sistema Positivo de Ensino, Raphaela Gubert, as instituições de ensino, em especial as voltadas para a educação cristã, devem ter como premissa um trabalho dedicado a ajudar a resolver os desafios do mundo atual. “Aceitar que há conflitos existentes entre o negócio e o carisma, a lógica do mercado e a lógica do Reino consagrado não significa dizer que é impossível conciliar os dois lados”, afirma Raphaela. Ela relembra ainda que ensinar com foco na evangelização está na raiz da própria educação brasileira. Segundo dados históricos, o embrião do ensino no Brasil nasceu com os primeiros jesuítas que desembarcaram na Bahia e começaram a estabelecer as bases de uma educação pensada pela Igreja Católica e focada exclusivamente na catequização. “Precisamos, com boa vontade e muito trabalho, unir forças para a construção de um pensamento coletivo em prol da criação de práticas pedagógicas que tenham como foco a formação humana por meio da evangelização”, reforça Raphaela.

O sentido da educação cristã e a sobrevivência das escolas católicas foram temas de debate do VI Encontro de Escolas Católicas, que reuniu em Curitiba 200 gestores escolares de todo o Brasil. Promovido pela Editora Positivo entre os dias 04 e 06 de abril, o evento trouxe nomes como o pedagogo Irmão Afonso Murad, o mestre em Gestão e doutor em Educação, Irmão Jardelino Menegati e o pedagogo, psicólogo e mestre em Pastoral Counseling pela Loyola University, em Chicago/EUA, Vanderlei Soela.

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