Cotidiano

Abandonado há 4 meses, muro de vidro da USP tem falhas de instalação

Amanda Perobelli/Estadão Conteúdo

Abandonado há mais de quatro meses, o muro de vidro que separa a raia olímpica da USP e a marginal Pinheiros teve falhas na instalação que levaram às quebras recorrentes das placas. 
A falta de uma peça de borracha usada para calçar as placas de vidro, e evitar o contato direto com a esquadria de alumínio, o que aumenta as chances de quebra, foi detectada pela Polícia Civil a partir de laudos do Instituto de Criminalística realizados nas 44 peças que se quebraram desde a inauguração do muro, há um ano. 
Especialista em vidraçaria que participou do projeto ouvido pela Folha vistoriou a obra no fim do ano passado e confirmou a falta dos calços. 
De acordo com o projeto do muro, as empresas responsáveis pela instalação deveriam ter inserido três peças de borracha em cada encaixe de lâmina de vidro na esquadria de alumínio, uma na base e duas nas laterais. 
A investigação policial, porém, ao analisar placas de vidro que apareceram avariadas, detectou a falta do calço na parte de baixo em algumas delas. 
Imagens de câmeras de segurança que mostram vidros se quebrando a partir da base, sem ação comprovada de vandalismo, também são citadas pela investigação. 
A Afeal (Associação Nacional de Fabricantes de Esquadrias de Alumínio), que representa parte das 44 empresas que doaram serviços para a construção do muro, negou a falta dos calços na instalação, e atribuiu as quebras de vidros às ações de vandalismo. 
Em um ano, foram elaborados 32 laudos pelo Instituto de Criminalística e nenhum comprovou ações de vandalismo, de acordo com a Polícia Civil. O inquérito foi encerrado inconclusivo. 
Anunciado no ano passado pelo ex-prefeito e atual governador de São Paulo, João Doria (PSDB), como uma forma de integrar a universidade à cidade, o muro de vidro não tem previsão de quando será concluído. Resta cerca de 1km de muro de alvenaria para ser substituído.
Orçada em R$ 15 milhões, e "totalmente custeada por empresas privadas", segundo Doria na inauguração, a obra, agora, deve receber recursos públicos para ser finalizada, de acordo com a prefeitura. 
Em nota, a gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), afirmou que está à disposição da universidade para concluir a obra com recursos públicos, caso não apareçam novas doações para custear a continuação da obra e sua manutenção. 
Ao longo de um ano, a Polícia Civil lavrou 36 boletins de ocorrência para apurar a quebra das 44 placas de vidro, houve ocasiões em que mais de uma apareceu quebrada no mesmo dia. 
O uso de material para amortecer o impacto entre o vidro e o alumínio é previsto em norma técnica que rege obras desse tipo. Evita que movimentações previstas na estrutura, como deslocamentos de ar e trepidações de veículos pesados na marginal Pinheiros, paralela ao muro, danifiquem as placas de vidro.
A USP confirmou que as obras estão paralisadas desde o fim do ano passado "à espera de um necessário ajuste no projeto de instalação, que deve envolver a prefeitura, as empresas e a universidade", segundo nota. 
A universidade pretende investigar de forma independente as causas das quebras e elaborar soluções para evitar novas ocorrências. Para isso, foi formado nesta semana um grupo de trabalho composto por seis professores da Escola Politécnica e um da faculdade de Matemática. Foi estabelecido prazo máximo
de quatro meses para a conclusão dos estudos. 
Os sinais de abandono são evidentes ao longo dos 2,2 km do muro de vidro. A Folha esteve no local nesta semana e encontrou 37 placas de vidro apoiadas em cavaletes de ferro à beira da marginal, sem nenhum tipo de proteção. Mato alto cobria parte desses vidros armazenados ao relento para repor as quebras. Ao todo, 20 placas estavam estilhaçadas com os cacos de vidro ainda no local. 
O mau armazenamento compromete a vida útil dos vidros temperados, como os usados na obra, de acordo com especialistas. Uma simples trinca nas extremidades pode facilitar que a peça inteira se quebre após a instalação. 
Desde setembro do ano passado, cabe à universidade o monitoramento e análise das imagens captadas por 84 câmeras de vigilância doadas pela secretaria de Segurança Urbana e instaladas ao longo do muro de vidro, como uma forma de inibir supostas ações de vandalismo. 
Os postes de energia no trecho entre a raia olímpica e a marginal precisaram ser trocados no ano passado após a derrubada do muro antigo ter danificado a estrutura elétrica, segundo e-mails trocados entre a direção da universidade e o Ilume, departamento de iluminação municipal, que a Folha de S.Paulo teve acesso. Houve alerta de risco dos postes antigos caírem sobre os carros que trafegam na marginal. 
O Ilume informou que realocou 88 postes naquele trecho e que a rede de eletricidade permanece intacta. 
A reportagem entrou em contato com empresas que realizaram as instalações do muro de vidro, mas nenhuma retornou o pedido de esclarecimentos. 
A arquiteta Jóia Bergamo, responsável pelo projeto, disse que não daria entrevista sobre o assunto ao ser procurada pela reportagem.
Na ocasião da inauguração, porém, a arquiteta e amiga pessoal de Doria posou sorridente ao lado de funcionárias em frente ao muro. A foto foi publicada por uma revista de celebridades. Jóia também fez o projeto da reforma do Palácio dos Bandeirantes, que encapou com tinta preta o piso de madeira e uma mesa de reuniões. A mudança foi alvo de uma série de críticas. 
Sem um contrato formal com as 44 empresas que prestaram os serviços e disponibilizaram os materiais, a USP dispõe de apenas um termo de doação, que não prevê custos de manutenção. 
Com 96 mil alunos e orçamento de cerca de R$ 5 bilhões por ano, a USP tem quase todo recurso onerado pela folha de pagamento e terá dificuldades em pagar essa conta. 

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