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Alemanha patina nas metas climáticas

“De Natal, eu queria um novo pacote climático”: protesto em Berlim

Na verdade, a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP25), em Madri, teve um bom início do ponto de vista alemão. A ministra do Meio Ambiente, Svenja Schulze, anunciou que o governo disponibilizou 30 milhões de euros adicionais para o fundo de adaptação às mudanças climáticas.

Disso se beneficiam principalmente os países mais pobres do Hemisfério Sul. Schulze afirmou: “Somos solidários com os Estados mais pobres e vulneráveis. A Alemanha continua sendo o maior doador bilateral do fundo de adaptação. Com a nova promessa, também estamos ajudando o fundo de adaptação a continuar seu valioso trabalho no próximo ano.” Ela espera que o esforço alemão possa dar impulso às negociações em Madri.

Foi o envolvimento internacional da Alemanha que permitiu que o país avançasse algumas posições no índice global de proteção climática (CCPI, na sigla em inglês) da organização Germanwatch e do Instituto NewClimate, pulando de 33° no ano passado para o 27° lugar, segundo anunciado na última terça-feira (10/12) pelas organizações ambientais.

Mas essa posição não é exatamente boa entre os 57 países classificados. E não é nenhum consolo que nações como a Austrália, a Arábia Saudita e os Estados Unidos estejam na parte inferior da tabela. A Alemanha está enfraquecendo há muito tempo porque a política nacional de proteção climática não está progredindo.

Por muitos anos, a Alemanha se orgulhou de sua “guinada energética”, ou seja, a mudança para energias renováveis e a desistência da energia nuclear. Mas Christoph Bals, especialista em clima da Germanwatch, aponta que o país recentemente negligenciou a expansão da energia eólica e solar.

Na Cúpula do Clima em Madri, Bals disse à DW: “No momento estamos vendo uma redução da energia eólica em regiões rurais nos últimos dois anos, com praticamente nada de novo sendo construído nesse setor. Junto à energia fotovoltaica, ela forma a espinha dorsal da guinada energética, que está sendo torpedeada no momento por uma mudança de curso político.”

Com essa mudança de curso, os políticos alemães estão reagindo a protestos maciços dos cidadãos contra novas turbinas eólicas nas proximidades de suas residências.

Atualmente, quase metade da eletricidade alemã vem de fontes renováveis, sem dúvida um sucesso de muitos anos de incentivo legal. Mas as emissões de gases poluentes pouco diminuíram – a Alemanha ainda queima muito carvão. A meta climática de redução, até 2020, de 40% dos gases de efeito estufa em comparação com 1990 não vai ser, portanto, alcançada.

Para muitos especialistas, desistir do carvão até 2038 é tarde demais. Mas Christoph Bals acredita que, no final, essa desistência deverá vir mais cedo: “Estou firmemente convencido de que desistiremos definitivamente do carvão por volta de 2030. O carvão mineral já não é mais rentável. E, considerando os previsíveis preços no comércio de emissões, nos próximos anos, o carvão de superfície na Alemanha também não será mais lucrativo. E assim veremos uma desistência muito mais rápida do que algumas pessoas ainda pensam.”

O tráfego na Alemanha é particularmente prejudicial ao clima. Suas emissões não foram reduzidas desde 1990. “Somos um país fabricante de carros”, diz Bals. “O poder do lobby nesse setor tem sido extremamente alto. A indústria automobilística apostou completamente errado. Ela confiou em motores a diesel, enganando consumidores e políticos, em parte com ajuda da própria política. E ela não conseguiu mudar a tempo para a mobilidade elétrica.”

Essa visão é compartilhada também por Jennifer Morgan, chefe do Greenpeace Internacional. “A indústria alemã, especialmente a indústria automobilística, deixou passar muitos desenvolvimentos. Estamos vendo: quem está vindo para a Alemanha e construindo algo novo? Tesla! Empresas como BMW e Volkswagen acham que podem bloquear tudo. Mas não se pode negociar com a ciência, é preciso avançar”, disse ela à DW em Madri. A fabricante americana de carros elétricos Tesla anunciou há algumas semanas a construção de uma grande fábrica no estado alemão de Brandemburgo.

Agrada ao governo alemão destacar que o país está seguindo agora não apenas um plano firme de desistência do carvão, mas também da energia nuclear, após o desastre do reator de Fukushima em 2011.

Christoph Bals comenta: “Enquanto tivéssemos energia nuclear e carvão, todas as empresas de energia eram basicamente a favor de não abandonar as duas fontes energéticas. O ímpeto em prol das energias renováveis era muito menor. Por outro lado, é verdade que poderíamos ter tido um declínio muito mais rápido das emissões se primeiro tivéssemos abandonado rapidamente o carvão e depois, a energia nuclear. Mas precisamos desistir velozmente de ambas as tecnologias de risco.” Em 2022, será desativada a última usina nuclear na Alemanha.

Em geral, a proteção climática é bastante valorizada em todas as pesquisas de opinião na Alemanha. Jennifer Morgan, do Greenpeace, diz: “Acredito que a sociedade entende que vivenciamos uma emergência climática, mas que o governo não lhe dá uma resposta satisfatória. Na verdade, os cidadãos não devem pagar mais nada, as empresas teriam que pagar por isso. Mas, para tal, os políticos deveriam tomar as medidas certas.”

Na Conferência da ONU sobre o Clima, a ministra Schulze reiterou o objetivo alemão de alcançar uma neutralidade climática até 2050. Até lá, ainda há muito o que fazer.

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