Cotidiano

Rio tem primeira Caminhada pelo Fim da Violência contra as Mulheres

Fernando Frazão/Agência Brasil

O Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, recebeu hoje (8) a primeira Caminhada pelo Fim da Violência contra as Mulheres, movimento promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil e que já ocorre pelo terceiro ano consecutivo em São Paulo. A mobilização reuniu centenas de pessoas vestidas de laranja, cor escolhida para marcar os “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, tema da campanha internacional apoiada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Na avaliação da líder do Grupo Mulheres do Brasil no estado do Rio de Janeiro, Andréa Carvalho, o Aterro foi tomado por uma “onda laranja”. O objetivo é mobilizar a sociedade para levantar a bandeira do combate à violência contra a mulher.

A empresária e modelo Luiza Brunet, vítima de maus tratos pelo ex-companheiro, compareceu ao evento. “A estrutura de uma caminhada como essa é para que a gente faça realmente um apelo para a sociedade de uma conscientização coletiva para a importância desse assunto, desses movimentos em que as pessoas têm acesso à informação e que estejam participando. Eu, como vítima, como mulher, como cidadã, e, agora, como ativista em prol da causa feminina, acho muito importante”, disse Luiza à Agência Brasil.

Coordenadora da Ordem dos Advogados do Brasil seccional RJ Mulher (OAB Mulher), Marilha Boldt, afirmou que a mulher precisa se sentir abraçada pelo sistema e contar com uma rede de apoio para ter condições de reagir e superar episódios de violência.

“Vivi por vários anos todas as formas de violência. Foi descumprida a medida protetiva. Na época, não tinha prisão para quem descumpria [a medida]. Passei por diversos percalços. Mas hoje estamos aí para dizer a todo mundo que é possível superar, sim, a violência doméstica. Ela não vai determinar o futuro da mulher, mas a superação, sim, vai determinar a nova página da vida dessas mulheres”.

Empoderamento

Para a ativista Lu Rufino, uma das embaixadoras do Grupo Mulheres do Brasil, participar da caminhada é uma forma de as mulheres agredidas mostrarem sua cara enquanto cidadãs.

“Não dá para ficar em casa reclamando que as coisas não acontecem. A gente tem que vir para a rua e dizer que não aceita ser agredida. Porque a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas no Brasil. E a maioria delas tem algum tipo de deficiência, porque o agressor é sempre um covarde. Ele prefere agredir uma mulher que tem a mobilidade reduzida, porque fica mais difícil ter uma reação”.

Lu Rufino é uma das criadoras do Miss Brasil Cadeirante. O intuito do evento é empoderar mulheres que, muitas vezes, tem a deficiência provocada após insistentes agressões do companheiro. Ela citou como exemplo a farmacêutica Maria da Penha que ficou tetraplégica, em 1983, após uma tentativa de homicídio por parte do ex-marido. Hoje, ela batiza a Lei 11.340/2006, que prevê punição para casos de violência doméstica.

Participante do concurso Miss Brasil Cadeirante, Helen Vincler conta que foi vítima de violência doméstica por muitos anos por parte do ex-companheiro. Ela celebra o fato de ter conseguido colocar um ponto final nas agressões. “Hoje estou aqui, participando do concurso e mostrando o que há de bom e bonito e ajudando as outras pessoas que passam por dificuldade, mostrando que dá sim para vencer esse obstáculo, essa coisa horrível que são as pessoas covardes que fazem mal às mulheres, deficientes ou não”.

Protetor eletrônico

A atriz Cristiane Machado foi a primeira mulher agredida no país a usar como medida protetiva um ‘pager’ (dispositivo eletrônico) ligado à tornozeleira do ex-companheiro que a avisa quando ele está mais próximo do que a distância determinada pela Justiça (200 metros). “Eu acho que esse aparelho vem ajudar muito as mulheres. Outras vão ser beneficiadas. Acho que pode ser um grande divisor de águas, até pela quebra de medida protetiva e até para a vítima ser protegida”.

Cristiane ganhou as manchetes do país ao denunciar o então marido, o ex-diplomata Sérgio Schiller Thompson-Flores, por agressão. Depois de ficar sete meses preso no Complexo Penitenciário de Bangu, zona norte do Rio, ele foi condenado, em setembro deste ano, pela Justiça do Rio de Janeiro, a três anos de prisão em regime semiaberto. “Essa [o uso do pager] foi uma das medidas cautelares para ele sair do presídio”, explicou Cristiane.

Também esteve presente na caminhada Gracy Mary Moreira, bisneta de Tia Ciata, cozinheira e mãe de santo brasileira, considerada por muitos especialistas como uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba carioca. Para Gracy, é preciso dar um basta na violência contra a mulher. “A mulher tem que ser contemplada com carinho, com amor, e não com pancadaria e ódio. Aqui também mostra a cultura do amor. Não tem que haver mais esse tipo de violência contra a mulher, nem mental, nem física, e espiritual também”.

Adesão masculina

A Caminhada pelo Fim da Violência contra as Mulheres contou também com o apoio de alguns homens, como o autônomo Edson Pereira. “Tem que haver um fim para essa violência, em apoio à minha namorada e a todas as mulheres que estão sofrendo violência. Não cabe só às mulheres defender essa causa, não. Nós, homens, também temos que ajudar”.

Para Edson, a violência contra a mulher é um ato de covardia. “Uma covardia absurda; é talvez a violência mais grave e covarde que existe”. Ele namora a cadeirante Helen Vincler, com quem disse aprender a cada dia. “Tem feito toda a diferença na minha vida, como homem, como ser humano”.

A campanha internacional apoiada pela ONU tem 16 dias de mobilização. No Brasil, a mobilização tem 21 dias. Iniciou no Dia da Consciência Negra (20 de novembro) e termina no Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro).

 
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