Empresta sua namorada?

youtube

Meu primo Mateus, é um cara espetacular, muito carismático, consegue manter uma conversa por horas com qualquer pessoa. Com criança então, ele chega a hipnotizá-las com suas histórias e fantasias, porém, não consegue arrumar uma namorada, aos 23 anos. Eu costumava dar umas cutucadas nele, quando me parecia um tanto cabisbaixo.

– E aí brimo (em tom de sacanagem), não vai me dizer que tá deprimido? Vai tomar todas hoje?

– Qual é Dio Cristo, tá me estranhando brother.

–  Somos primos e não irmãos, caramba. É só dar corda que você se folga né.

– Bem que você prefere eu de irmão do que aquele boçal do Amadeus… E, assim a gente desviava o assunto por pura bobagem. Pelo menos ele tirava aquele ar esquisito que não chegava a dar pena, mas me deixava pensativo.

Um dia ele me surpreende com um pedido inusitado. Vindo do Mateus tudo era possível.

– Dionísio, empresta sua namorada. Disse ele, não perguntou não e na maior tranquilidade.

Respondi de pronto: qual é Mateus, endoidou de vez?

– Quero participar do festival de dança de salão lá em Platinópolis. Justificou o pedido. Modesta a parte, a Danuza é uma gata e tanto. Dessas de tirar o fôlego dos melhores nadadores olímpicos. Às vezes nem eu acreditava como a tinha conquistado. Ela adorava dançar e eu, meio pé de chumbo, travado, só mesmo depois de umas três latinhas de cerveja, aí sim, ninguém me segurava. Claro, dava vexame numa pista de dança, mas sob o efeito do álcool, quem ligaria?

Quando a gente ia em bailes, alguns shows ou festas, Mateus sempre vinha ...

Calhau anuncio noticias

... junto. Vez por outra conseguíamos uma amiga de Danuza para fazer companhia ao primo, mas quando elas viam a silhueta do rapaz, o preconceito logo traduzia-se em desculpas que, com o tempo o frustrou demasiadamente. Enfim, claro que não concordei com seu pedido. Primeiro que não seria eu quem deveria decidir, segundo, o festival ficava em outra cidade, a cerca de 400 km da nossa pequena Princesa do Oeste e isso geraria despesas, ensaios e muita responsabilidade. Seria uma trabalheira e tanto. Mas depois me dei conta e pensei se seria por capricho ou para provar algo a sociedade. Ele não justificava seu desejo.

Eu costumava dizer pra ele simplesmente viver a vida sem se incomodar com o preconceito. Claro, pra mim, era fácil aconselhar e, falar é sempre simples, mas vivenciar o problema é que fica complicado. Mateus estava com 115 kg, tinha boa desenvoltura no aspecto físico, nem sei como ele conseguia dançar, caminhar sem se sentir ofegante, jogar vôlei com a turma do bairro. E mesmo assim, a maioria observava-o com aquele olhar velado, porém, inquisidor. Eu percebia esses olhares e algumas conversinhas de canto, entre um e outro falso da turma. Certa vez achei que tinha aparecido a mulher ideal pra ele. A Maristela, de estatura mediana, porém de um gênio muito forte. Eles ensaiaram um romance que durou seis meses, até que ela não conseguiu disfarçar o preconceito e soltou a famosa pérola: você tenta ser simpático pra compensar a sua gordura, pra que isso, se rebaixar pra agradar os outros…e mais algumas ofensas. Mateus era do jeito que era e sempre foi carismático naturalmente. Isso eu tinha certeza, nunca quis agradar ou parecer simpático para pessoa não reparar seu tipo físico. Às vezes ele mesmo brincava com o próprio peso. Foi a gota d’água.

Pra falar a verdade, o problema de seu sobrepeso é genético, pois ele não era um comilão compulsivo e tinha um paladar de gourmet. Não comia pizza, adorava comida japonesa, tailandesa, enfim, além de ser um cara que sabia conversar, era sempre bem humorado e natural. Por isso, não entendo qual é a onda do preconceito, seja ele qual for.

Quem não o conhece, nem se dá ao luxo de conversar e ter o prazer de dar umas boas gargalhadas ou aprender um pouco de filosofia e história. Duas das suas especialidades. Somos suspeitos, eu e Danuza, mas sempre damos força pra ele. Até incentivei a entrar num site de relacionamentos dia desses, mas ele não se animava com a ideia. Então nem insisti.

Acabou que, duas semanas depois, Danuza concordou e achou a ideia fantástica. Fiquei de cara e confesso que pensei besteira. Até mesmo num fiasco dos dois e minha linda namorada pagaria um mico e tanto, caso eles não tivessem uma boa performance e, o que jurados e plateia pensariam sobre o casal? Agora, confesso que tive um rompante de pré-conceito pelo próprio primo, o qual sempre defendia.  Depois cai na real.

Seis meses se passaram e o dia chegara. Fomos no meu carro, numa viagem de cinco horas direto pela estrada principal ao sul do estado. Chegamos em Platinópolis e tínhamos uma noite para descansar, ou melhor eles né, pois eu estaria me divertindo com tudo isso, livre para beber e ficar de boa. Bom, nunca conferi os ensaios deles, pois sempre estava atarefado e Danuza dizia que estavam se saindo bem, então acreditei.

Pena que não filmamos o festival e sabe como foi a apresentação deles? Show de bola, arrasaram, embora o primeiro lugar não veio, mas os aplausos foram reais...

Lembrei disso tudo quando vi esse vídeo de um rapaz parecido com meu primo.

Não tive dúvidas, resolvi fazer uma comparação e homenagear ambos. E meu, hoje, anda de namorada e feliz da vida, com o mesmo peso e mesma simpatia.

RECEBA O NOSSO BOLETIM EM SEU E-MAIL!

--

ÚLTIMAS NOTÍCIAS


o-efeito-borboleta-e-os-pensamentos

O Efeito Borboleta e os Pensamentos

como-ficar-invisivel

Como Ficar Invisível

po-esia-1

Pó-esia

passa-se-tempo

Passa (se) tempo

pare-de-praticar-lucros-ruins

PARE DE PRATICAR LUCROS RUINS.

impossibilidades-possiveis

Impossibilidades Possíveis


MAIS NOTÍCIAS