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'Não tive que matar branco para me afirmar', diz Antonio Pitanga

Divulgação

Um ciclo entre presente e passado guiou a escolha de Salvador para a festa de 80 anos do ator baiano Antonio Pitanga. "Fiz 'A Ópera de Três Tostões' neste teatro incendiado", lembra Pitanga, olhando o camarim da Sala do Coro do Teatro Castro Alves, onde está agora em cartaz com "Embarque Imediato".
Em 1960, na carcaça do teatro destruído pelo fogo antes da inauguração, Martim Gonçalves montou a "Ópera", de Bertolt Brecht. O palco serviu ainda de estúdio para os filmes "A Grande Feira" (1961), de Roberto Pires, e "Barravento" (1962), de Glauber Rocha, essenciais para levar Pitanga ao coração do cinema novo.
Nos palcos, ele ganhou o primeiro papel de protagonista no início dos anos 1960, com "A Morte de Bessie Smith", de Edward Albee, dirigida por Luiz Carlos Maciel na Escola de Teatro da Bahia. Albee denunciava o racismo americano, enquanto "Embarque Imediato" questiona a identidade negra. Na peça, Brecht reaparece como uma voz espectral.
"Minha vida é isso", diz o ator, que muito cedo assumiu seu caminho contra o racismo. "Sem raiva, sem ódio. Eu não tive essa cultura de ter que matar branco para me afirmar. Não. Eu tenho que fazer o discurso do convencimento da igualdade racial. 'Barravento', 'Bahia de Todos os Santos' e 'A Grande Feira' eram uma afirmação sem bandeira. Estar lá igual aos outros."
No camarim, Pitanga retira do cabideiro o figurino de descendente de agudás, os ex-escravos retornados do Brasil para o Benin. No último dia 6 de junho (a mãe rezava para que ele nascesse no 13, dia de Santo Antônio), Pitanga festejou os 80 anos no final da apresentação, gritando: "Vem, família!"
Um espectador brincou: "É a pitangueira". O ator foi abraçado pela esposa, Benedita da Silva, pelos filhos Rocco e Camila, parceiros do pai na peça, e por parentes baianos.
Na montagem, dois homens negros –um doutorando brasileiro (Rocco) e um velho africano (Pitanga)– são confinados pela imigração numa salinha de aeroporto. O primeiro, estudioso de Brecht, perdeu passaporte e identidade; o segundo foi retido sem explicações. Aturdidos, discutem as diferentes gerações da diáspora. Num vídeo, Camila Pitanga vive uma agente de imigração.
O texto é "um pouco da minha história", afirma Pitanga. "De saber que afrodescendente é esse. Até hoje eu me procuro". Ele deseja levar a peça a Rio de Janeiro e São Paulo.
Líderes negros, como o sul-africano Steve Biko e o americano Malcolm X, surgem em imagens projetadas nos biombos do cenário desenhado por Erick Saboya. Nessa hora, Rocco menciona a morte de Evaldo dos Santos Rosa, no Rio, depois de militares dispararem 257 tiros na perseguição ao carro da família negra.  
Pitanga, então, relembra a inquietação com a ausência de negros na plateia de "O Poder Negro", no Teatro Oficina, em 1968. "É um paradoxo entender que está fazendo um projeto sobre o negro e 99% dos espectadores serem brancos", Pitanga conta.
"Eu tinha essa consciência. Eu não fui pro radicalismo. Um radicalismo doente, ferrenho." Em 2019, os negros estão presentes no Teatro Castro Alves.
Homenageado com a medalha Zumbi dos Palmares, da Câmara de Salvador, ele ganhará ainda uma mostra com 25 filmes no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), prevista para agosto, no Rio, e para setembro, em Brasília.
O ator reconhece o apoio de cineastas como Glauber e Cacá Diegues às suas causas identitárias. "Eu tive uma clareza muito grande de quem são os meus aliados. E muitos deles eram brancos. Muitos negros não queriam partir comigo. Por comodismo, por estar numa zona de conforto."
Pitanga põe o gorro africano azul e finaliza o figurino, a meia hora de entrar no palco. "O fascismo está criando raiz não só no Brasil, no mundo inteiro. Claro que eu fico assustado", admite o ator, crítico do governo de Jair Bolsonaro.
"É o caos. Hitler amava Wagner. Mussolini amava a música. Bom, pera aí: esse não ama nada. Quer dizer, esse tem um sentido de armar até os dentes e matar, matar, matar, matar", opina sobre o presidente. "Ele tem uma megalomania que é indecifrável".
Antes, uma tempestade sacudiu o guarda-chuva do ator na caminhada do hotel ao teatro. Outra ventania se insinua nos convites para filmes. "Que barravento é esse? Quem sabe não é um novo cinema surgindo na vida de Pitanga?", ele sorri, pronto para mais uma noite de espetáculo.

EMBARQUE IMEDIATO
Direção: Márcio Meirelles. Sala do Coro do Teatro Castro Alves (pça. Dois de Julho, s/nº, Salvador). Qui. a dom., às 20h. Até 16/6. Ingr.: R$ 30

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