A nossa história do Brasil

Olá! Meu nome é Giovanna, sou formada em História, faço mestrado na área de História Social, com um projeto sobre a cultura brasileira do século XIX através da arte e dos estudos de gênero. Para além disso, sou admiradora de poesia e iniciada na escrita poética, apreciadora da arte e dos movimento sociais e humanos dentro da história.

Aqui, nesse espaço, tenho a intenção de compartilhar alguns dos meus estudos e pensamentos sobre a nossa história. Considero de extrema importância social e identitária a gente se reconhecer no mundo, e principalmente quando se trata da História do Brasil, que é tão rica e bonita, mas infelizmente distorcida, já que é contada a partir de uma perspectiva europeia e colonizadora.

A História dos Vencedores aqui vai ser desconstruída, em busca de nossas origens. Acredito que para se colocar no mundo é preciso saber de onde viemos, e será que realmente sabemos toda a nossa história ou conhecemos apenas uma versão dela?

Que tal embarcarmos juntos em busca da nossa identidade?!

 Contato: trevelingiovanna@gmail.com

A representação indígena construída pela perspectiva do Velho Mundo

Reprodução da obra de Debret - "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil"

"Soldados índios de Curitiba escoltando selvagens"

Um dos fatores que mais saltava aos olhos colonizadores era a cultura indígena, os nativos, considerados pitorescos e exóticos à cultura europeia, e que foram reconstruídos a partir de um olhar dominante, que na maioria das vezes carregava preconceitos e estigmas próprios dos artistas europeus que registravam essa cultura. Esse estereótipo indígena, capaz de disseminar um ponto de vista totalmente etnocêntrico, faz parte da nossa memória histórica (que foi contruída por um discurso dominante) até os dias de hoje, fazendo com que essa parcela da população e suas heranças sejam cada vez mais marginalizadas.

A representação indígena nas obras de Debret, pintor francês que chegou ao Brasil com a Missão Artística Francesa e viveu em terras brasileiras durante 15 anos, revela também o imaginário do período acerca dos nativos, principalmente na construção de determinada memória - colonizadora e enviesada.

O contato intenso da cultura indígena com outros grupos sociais, influenciando-os (os indígenas), propôs certa fluidez cultural entre os europeus e os nativos. Por trás dessa relação havia interesses bem consagrados no que diz respeito a atitude governamental: estes colonizadores, através de uma possível mestiçagem provocada pelos aldeamentos, poderiam “extinguir” a cultura indígena e, assim, se apropriarem de suas terras, fazendo-os também seus servos.

A ideia de um povo indígena “sem alma”, “selvagem” e marginalizado trazia à tona, aos europeus (políticos e viajantes), uma noção de civilização. Podemos entender aqui o termo “civilização” em um parâmetro contextual baseado na Europa, como influência máxima de nação civilizada. 

A obra de Debret pode apresentar ambiguidades explicitas, tratando do povo indígena como mestiços/civilizados ou selvagens. As produções do artista parecem revelar certa interpretação pautada em um olhar do outro (estrangeiro), culturalmente diverso. A representação indígena de uma sociedade oitocentista em viés colonizador propunha subordinação daqueles que aqui estavam, sob pretexto de modernizar o país rumo ao progresso, ideia que também fazia parte da concepção do pintor aqui abordado.

A obra, índios do aldeamento de São Lourenço (considerados civilizados/mestiços pelo autor/pintor) (imagem1), mostra suas habilidades com arco e flecha, revelando uma perspectiva positiva do pintor, uma vez que esse grupo indígena estava submetido a parâmetros europeus/católicos de vivência nos aldeamentos. Outra obra mostra um grupo de indígenas Botocudos(imagem2) que são retratados com hostilidade pelo autor, os não civilizados, àqueles que ofereciam ainda resistência à colonização de sua cultura, considerados hostis e selvagens.

 

As obras de Debret parecem revelar um imaginário europeu preconceituoso e superior, visando um progresso nacional que favorecia a coroa portuguesa.

Alguns estudos apontam que, apesar dos esforços colonizadores de desvencilhar os indígenas de sua cultura, culminando assim na perda de seus direitos territoriais e de vivência coletiva, estes reservaram a permanência de alguns costumes, até mesmo dentro de seus aldeamentos. Viver nos aldeamentos e de acordo com uma política monárquica de submissão parece, no período colonial, uma maneira de resistência e de sobrevivência de suas condições de vida, nem que por pouco tempo. Uma sobrevivência em um ambiente que se tornou hostil à sua presença (da cultura indígena).

Assim, parece ainda haver a possibilidade de reconstrução identitária a partir de uma reivindicação comum e reafirmação enquanto indígenas, que resistiram através do tempo, como um grito calado que não conseguia se fazer ouvir. Dessa forma, acredita-se ainda que essa intenção de mestiçagem da coroa portuguesa (assim como dos viajantes/intelectuais estrangeiros) proporcionou a forte reafirmação identitária de alguns grupos indígenas, que transborda e se desloca até os dias atuais na reivindicação de sua existência e de sua vivência em sua própria cultura colonizada tempos atrás, e que ainda permanece nessa política que subjuga sua permanência enquanto sujeitos.   

           

 

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