A construção de um líder a partir da imagem

Reprodução da obra de Jean-Baptiste Debret

"Coroação de Dom Pedro I"

O ano de 1808 foi um marco na história do Brasil. A chegada da corte portuguesa em terras brasileiras fez com que o país deixasse de ser colônia para se tornar a nova sede da monarquia. D. João e sua corte fogem às pressas de Portugal devido à invasão das tropas francesas comandadas por Napoleão Bonaparte. Temendo perder a tão rica colônia brasileira – que basicamente sustentava o reino português – d. João, após muita indecisão, opta por se refugiar no Brasil.

Nesse momento, o Brasil começa a funcionar por um parâmetro totalmente distinto. Agora precisava atender às demandas reais, que buscava a modernização e “civilização” do país tendo como referência o continente europeu. Dessa forma, novas configurações sociais começam a surgir, e a construção de uma nova identidade da corte real precisava se estabelecer, dessa vez em terras americanas.

Artistas franceses tiveram grande atuação nesse sentido, afinal estes também precisavam se exilar após a queda de Napoleão – já que trabalhavam para ele –, quando a França foi retomada pelo regime monárquico após a revolução. Em uma junção de interesses, em 1816 desembarca, no Rio de Janeiro, a Missão Artística Francesa, com diversos artistas.

Bem recebidos pela Corte, apesar da inicial falta de posicionamento desta, se hospedaram na capital e deram início a um importante momento da história nacional. Dentre os diversos artistas que compunham esse grupo, dos mais diversos ofícios e funções, estava Jean-Baptiste Debret, um pintor de história, pintor viajante, que se consolidou como um dos nomes mais simbólicos da construção de uma memória nacional brasileira, uma vez que perpetuou a existência da população residente no país através de esboços e aquarelas futuramente publicadas em seus três diários de viagem, intitulados Viagem pitoresca e histórica ao Brasil nos anos de 1834, 1835 e 1839, respectivamente.     

Sendo Debret um pintor historiador, suas funções como artista eram inúmeras. Trabalhou atendendo especificamente à corte portuguesa – não tanto quanto estava acostumado, já que tinha como referência Napoleão, a quem atendia constantemente –, exerceu o ofício de professor dando aulas de pintura histórica na Academia de Belas Artes (muito tempo depois de sua chegada), era responsável pela decoração dos salões em festividades da corte, e também, como um desejo particular, andava pelas ruas do Rio de Janeiro registrando e apreendendo a população de um país que contrastava de maneira relevante com o seu, que perpetuava cores, cheiros, sabores, culturas distintas, e um costume escravocrata que lhe saltava aos olhos – bem evidente em suas obras.

Nos referindo ao aspecto formal da atenção dispensada à corte, podemos perceber duas obras de Debret como sendo grandes reveladoras do contexto em que estava inserido (e do qual havia saído), assim como seu posicionamento enquanto artista incumbido de um ideal pessoal: os retratos de D. João VI e D. Pedro I, produzidos em contextos distintos e que, ao mesmo tempo, revelam uma simbologia iconográfica gritante aos olhos observadores.

                                                  D. João VI                                                                                                                                      D. Pedro I

                      

A formação do retrato, em si, enquanto forma artística, já encontra certo embasamento monárquico no sentido de legitimar o monarca e sua figura no cenário político, de criar a identidade de seu regime. Modelos de retratos são encontrados na França, com Luís XIV e Luís XVI, ambos servindo de referência para a estrutura do retrato de D. João VI em 1816, quando este é aclamado rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (atual Brasil). D. João VI, assim como suas influências, atendem a um determinado tipo de governo, moldado no tradicional Antigo Regime, o que simboliza as posições monárquicas nas obras, na constituição de cada elemento destas.

Jean-Baptiste Debret é formado a partir de um referencial francês, neoclássico, em uma sociedade em tempos de revolução. Carregava consigo ideais que previam a reforma do sistema monárquico na forma que se constituía no Antigo Regime. Sendo assim, Debret enxergava em D Pedro I, filho de D. João VI e sucessor ao trono, uma figura capaz de governar por um viés revolucionário, não mais seguindo os preceitos conservadores do pai. Assim, em suas pinturas, diverge de uma arte conformadora do regime monárquico e desafia as regras artísticas até então vigentes. Representa D. João VI como a figura ideal do sistema de corte e, em contraposição, D. Pedro I se torna a representação daquele que iria salvar o Brasil dos poderes de Portugal. Inseriu, na imagem de D. Pedro I, características até então incompatíveis com a figura de um monarca, calçando-o com botas, deixando a espada a mostra, e vestindo-o com mantos que representava a nação brasileira, com suas cores e animais bem representados nas vestimentas. Também desenhou, em sua cabeça, uma coroa, objeto real que até então era apenas deixada ao lado, em um estofado luxuoso. Desta forma afrontava todos os parâmetros de até então, com a intenção de propagar a figura ideal de um herói.

Debret tinha como característica de seu trabalho, enquanto pintor de história, um mecanismo de persuasão (manipulação) das imagens, para aproxima-las de crenças que poderiam ser colocadas em prática. Também permitia, através de suas obras, determinada narrativa histórica, realizando uma iconografia que traduzia o contexto vivido no momento.

Tendo isto em vista, o retrato carregava uma representação muito forte do imperador, aproximando-o a uma divindade, uma vez que a imagem dele, o retrato, era entendida como sua personificação. Seu retrato era carregado da simbologia política e divina, onde sua imagem estava, o imperador estava. Era-lhe reservada homenagens, saudações, e festividades, pois o imperador estava presente nesses contextos de forma simbólica, através de sua representação. Dessa forma podemos concluir que o pintor se utilizou de tradições, permanências culturais do Antigo Regime, para tentar construir uma nova nação, uma figura revolucionária, que carregava, em sua base, o conservadorismo monárquico que foi negado e que a antecedeu.

Trazendo a discussão para a atualidade, podemos perceber, a partir dessas referências de construção imagética de líderes brasileiros, nossas heranças culturais que sempre buscam um grande nome para “salvar” o país, o que se legitimou, no caso de D. Pedro I, com a Independência do Brasil, que, na teoria, tirava o Brasil das mãos de Portugal, cortando laços com a metrópole – o que não aconteceu muito bem dessa forma.

A manipulação das imagens, e os discursos que estas promovem, carrega os ideais de quem produz essas obras, e estas ideias se difundem ainda mais com os avanços tecnológicos dos dias atuais, permitindo, de maneira mais estratégica, estruturar simbologias e narrativas à favor de um ideal próprio, confundindo a população que busca incessantemente por um herói nacional.

Assim, nos embasando nessa herança histórica que carregamos, podemos entender que reconhecer como essas figuras de liderança se formam, analisando-as de forma crítica, é um ótimo exercício para a construção consciente de uma democracia justa e eficiente, que beneficie à todos de forma equitativa.

 

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