A ilusão perversa da democracia racial no Brasil

Reprodução da obra de Modesto Brocos

"Redenção de Cam". Pintura a óleo sobre tela realizada pelo artista espanhol Modesto Brocos.

O debate de hoje pretende dar sequência à abordagem aqui proposta. A questão racial no Brasil está na raiz da nossa história, e merece lugar de destaque e de questionamento.

Falo aqui, sobre essa temática, a partir do meu lugar enquanto mulher branca e historiadora. Acredito que não posso assumir uma posição de propriedade no assunto, pois minha vivência vem de outro lugar. Mas também considero que nós, brancos, precisamos questionar nosso lugar na sociedade, principalmente sendo nós os sujeitos legitimadores do racismo. Esse debate não pode ser isento na nossa realidade, o assunto é público, e a ausência dessa discussão mata todos os dias.

O racismo tem estruturas históricas na condição imposta à pessoas pretas desde a colonização. Como já abordado anteriormente, os europeus se colocavam como sujeitos ativos na construção da história – e, mais especificamente, da nossa história –, oficializada a partir do registro escrito. A superioridade, a busca pelo poder, por parte dos colonizadores, e a falta de entendimento e aceitação de outras culturas, que não a deles, propôs a escravização daquele que não era branco – cor branca considerada um pilar de civilidade e moralidade.

Corpos pretos trazidos da África ao Brasil, colônia (e posteriormente sede) portuguesa, construíram uma herança de muito sofrimento e busca de sobrevivência diária dessa população. Os escravizados(as) estavam à mercê das vontades europeias brancas, que se consolidavam como tal, no controle da sociedade, pela dura realidade da parcela preta residente no Brasil.

Considerados não-cidadãos, apenas parte da força braçal na hierarquia social, os povos africanos (provenientes de diversas tribos e regiões da África), iam perdendo pouco a pouco sua identidade, tentando conservar na memória e em pequenas ações, escondidas aos olhos europeus, sua cultura – principalmente através do sincretismo religioso, atribuindo, por exemplo, nomes cristãos à figuras de suas práticas religiosas, para conservar a fé africana sem a punição por parte dos brancos europeus, algo que ressoa até os dias atuais.

Essa condição afirmou a realidade do povo preto não só na colônia, mas durante toda a vivência histórica brasileira. Por conta da escravização, essa parte da população nunca equiparou a vida em sociedade ao do povo branco, nunca teve os mesmos direitos, as mesmas oportunidades, os mesmos olhares, o mesmo privilégio: sempre estavam há muitos passos atrás.

Mesmo com a conquista de alforria, por parte de alguns(algumas) escravizados(as), e com a posterior abolição, o imaginário social já estava tomado de um entendimento muito bem conservado sobre o povo preto, cercado de estereótipos e preconceitos, arraigados nas entranhas do Brasil.

Com a política de branqueamento da população (teses eugenistas), entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX, através da miscigenação, o racismo se reafirmava mais uma vez. Essa teoria defendia um padrão genético superior para a “raça” humana. Tais teses propunham a ideia de que o homem branco europeu tinha o padrão da melhor saúde, da maior beleza e da maior competência civilizacional em comparação às demais “raças” – no caso do Brasil, os indígenas e, principalmente, os negros. Esse pensamento partia do pressuposto de que, dada a realidade do processo de miscigenação na história brasileira, os descendentes de negros passariam a ficar progressivamente mais brancos a cada nova prole gerada.

Essa tese repercutiu negativamente também na população negra que, abandonando suas origens, sua história e sua cultura, passou a acreditar que precisava ser branca ou pelo menos de “alma branca” para ser acolhida na sociedade. E assim, parte dos negros também se tornaram racistas.

Essa absurda teoria visava apagar de vez qualquer registro cultural proveniente de outros povos, que não europeus, situação que propagava ainda mais o pensamento racista, colocando o povo preto à margem da sociedade, devido à crença de uma superioridade branca trazida pela colonização. A própria miscigenação forçada é extremamente racista.

Conserva-se, no Brasil, que nosso país teria escapado do problema do preconceito racial, a partir da teoria de que no Brasil teria havido uma espécie de escravização branda e uma harmonia entre senhores e escravos. Também era usual a comparação da situação racial observada nos Estados Unidos da América, na época de extrema segregação racial escancarada, concluindo-se que no Brasil os negros tinham um tratamento muito melhor.

Mas isso não era verdade, e diversos autores contestaram essa visão já no século XIX. Pesquisas posteriores reafirmaram a falsidade das ideias da harmonia social e da escravização branda, mostrando como os negros viviam em habitações rústicas e muitas vezes insalubres, exerciam trabalhos pesados em longas jornadas, recebiam pouca assistência médica e comida de baixa qualidade, e sistematicamente eram abusados física, moral, psíquica e sexualmente. Além de algumas pessoas acreditarem na existência de uma escravização branda e na harmonia social, a miscigenação, defendida por alguns nomes brasileiros, também propôs uma ideia de democracia racial no Brasil por uma possível crença (ingênua ou perversa) de que esse processo era resultado de uma harmonia entre brancos e pretos – o que é totalmente contraditório, se analisarmos os ideais que levaram a essa política inicial de miscigenação.

Essa é uma noção totalmente errônea da nossa realidade. Essas ações advindas desde o processo colonial só nos mostram ainda mais o equívoco da democracia racial, já que trabalharam na formação de um racismo estrutural, velado, que há muito prejudica a população preta que sobrevive em uma sociedade onde a superioridade branca ainda se reafirma em cada comportamento, fala e olhar. No Brasil não existe uma segregação considerada “formal”, todavia é patente a segregação material evidenciada pelo abismo social entre brancos e negros.

O mito da democracia racial vem da negação desse problema urgente, que contribui com a conservação de lugares privilegiados predominantemente brancos na sociedade.

Convido vocês, leitores, a repensarem esses lugares sociais e a observarem à volta de vocês, encarem a realidade e se proponham a autocritica que pode mudar essa história totalmente racista que o Brasil conserva.

Coloco aqui, para finalizar essa discussão inicial sobre o tema, uma matéria importante que expõe o racismo velado no nosso comportamento diário:

https://jornalintegracao.com/noticias/campanha-discute-necessidade-de-eliminar-expressoes-racistas-do-vocabulario-popular

 

 

 

 

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