O Brasil através do olhar colonizador

Reprodução de obra inserida em "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil"

"Vendedor de flores na porta de uma igreja no domingo" - Jean-Baptiste Debret

O conhecimento histórico o qual temos acesso é o construído pelos povos do chamado "Velho Mundo", já que estes detinham de registros na forma de História escrita, se mostrando, assim, uma concepção de História eurocentrada. Desta forma, as entrelinhas dessa narrativa sugerem que, desde os tempos mais remotos, o continente europeu viveu em disputa pela conquista de territórios, e a ele cabe a versão a qual nos identificamos: a Ocidental.

A superioridade não se colocava apenas na disposição dos continentes nos mapas (construído pelas mãos destes europeus), por exemplo, mas também na imposição de sua cultura, considerada como correta, aos povos que dominavam.

No Brasil não foi diferente. Levando em conta ainda a falácia do descobrimento, uma vez que estudos comprovam a noção de que já se sabia da existência das terras na América do sul pelas viagens espanholas, podemos compreender que a história do ser humano é a história do poder, da dominação e hierarquia.

Portugal sempre foi um país colocado à margem da sociedade europeia, considerado o menos relevante nessa relações de poder que se impunham. Com a conquista de terras brasileiras, o país começou a ganhar certo prestígio no continente europeu, até o momento em que Portugal se encontrou – ainda que implicitamente – sustentado pela produção econômica brasileira, que atendia, até determinado período, somente à sua metrópole (Portugal).

Se impondo com seus costumes – que acreditavam ser exemplos corretos – nas terras “descobertas”, e como superiores providos de uma “sociedade civilizada”, os colonizadores portugueses dominavam também o imaginário daquela população. Um exemplo disso é a perspectiva que herdamos de “modernização”, “civilidade” e “progresso”, conceitos sempre pensados a partir da noção colonizadora europeia.

Desde a chegada da Família Real, fugida de Portugal, em 1808, o Brasil deixou sua condição de colônia, já que se tornava a então sede da monarquia portuguesa, e assim se iniciou uma insaciável busca pela modernização do país ao espelho da Europa.

Os povos nativos que aqui residiam eram considerados selvagens, o que provocava uma imagem pitoresca, exótica, do país – que, convenhamos, é exportada até os dias atuais. Aos escravizados que em terras brasileiras faziam morada, pela sua condição de mercadoria, era negada a liberdade, e a subalternidade rodeava a identidade de povos africanos, que guardavam uma origem cultural extremamente rica e imponente, agora escondida e marginalizada.

Essas ações que condicionavam o pensamento do povo brasileiro para, nos termos colonizadores, uma cultura europeia erudita, moderna, que era capaz de civilizar uma população selvagem, promoveu a aculturação, fenômeno que faz parte de um processo de modificação cultural de um indivíduo ou grupo que se adapta à outra cultura, ou a ela se funde pelo seu recorrente contato. Vivemos nesse estado de aculturação até os dias atuais.

Esse processo de superioridade cultural provocou, e provoca, a permanência de uma noção de poder aos povos europeus, e temos que reconhecer que carregamos isso em nosso cotidiano, sempre almejando a vivência em terras europeias, nos colocando em uma relação de inferiores em relação a estes.

A apropriação europeia, principalmente nesse período que buscava uma incessante modernização capaz de sustentar a monarquia portuguesa em terras além-mar, concretizou os lugares sociais de cada povo, e aqueles que não provinham de países europeus ao menos almejavam esta condição, se portando, vestindo, e agindo como estrangeiros.

Concluímos, neste ponto, que nosso pensamento ainda é colonizado, e esse fator precariza ainda mais a busca por nossa identidade e pela reafirmação e conservação de um olhar gentil à outras culturas existentes e formadoras do Brasil, que não a europeia.

Para trabalhar essa questão, precisamos inicialmente identificar o problema: o nosso olhar sempre foi condicionado para fora do nosso território, e fomos diariamente educados a um certo tipo de civilização, projetada como um exemplo a ser seguido, ainda que não faça sentido a quem somos e ao nosso contexto.

É necessário identificar as relações de poder que norteiam a nossa história, que a fazem enquanto tal, pois aí encontramos as lacunas que precisam ser preenchidas para a reconstrução de uma História mais democrática e que atenda a todas as vozes que constroem a sociedade.

 

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