Crônicas

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores. Desde julho de 2019 vem publicando suas crônicas no Jornal Integração. E-mail: rodrigojacutinga@hotmail.com

Crônica: A Bacia Grande

Por Rodrigo Alves de Carvalho

Dona Josefina gritava para dona Tereza trazer a bacia grande. Dona Tereza subia o barranco arrastando a gordura do corpo.

Suava como um pedreiro sob o sol do meio dia em cima da laje. Corria dona Tereza para buscar a bacia grande na casa de dona Chica.

As passadas de dona Tereza eram como pisadas de elefante sobre a terra. Os seios batiam-lhe o rosto, o quadril enorme esbarrava nas crianças e as atiravam para longe. O rosto vermelho, a testa franzida e a boca aberta.

A bacia grande... a bacia grande... a bacia grande...

O vento na tarde soprava uma poeira fina sobre os barracos de madeira.

Homens sem camisa separavam latas de alumínio nos quintais sujos de entulho e as crianças brincavam de luta rolando como gatos no areal do final da rua.

Dona Tereza adentra à casa de Dona Chica, esbaforida e suando uma mina d`água.

Apanha a bacia grande e sai do barraco sem falar nada e nem por quê.

Desce dona Tereza pelo barranco da rua em direção à casa de dona Josefina. Carrega os grandes seios, o grande quadril e a bacia grande. Esbarrando nas crianças e as atirando para longe. Gemia enquanto seus ossos estralavam pelo esforço da corrida. A bacia escorregava de sua mão, girava sob seu corpo, refletia o sol da tarde em seus olhos.

Dona Josefina... dona Josefina... dona Josefina...

Olhando para minha mãe estava o grande Jesus Cristo pregado na cruz pregado na parede.

Dona Josefina apertava o barrigão de minha mãe, deitava-se sobre ele, queria que eu saísse. Minha mãe atarracava nas barras de ferro da cama do quarto enquanto contorcia-se de dor.

Dona Tereza entra trazendo a bacia: Água quente. Limpe o sangue, limpe o que sair!

Todos faziam força. Muita força para que finalmente ouvissem o choro recém-chegado

E eu chorei pra valer, toda vila miserável ouviu meu choro. Os mais otimistas sorriram e os pessimistas fizeram beiço porque mais um pobrezinho vinha somar às estatísticas.

Minha mãe suada e descabelada me abraçou e me colocou ao seu peito. O pequeno joelhinho de gente mamava alheio ao que estava em sua volta. Depois fui limpo na água quentinha em minha bacia grande.

Presente de dona Chica.

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