Opinião

Mídia ajudou a criar Bolsonaro e o bolsonarismo, mas diz não ter nada a ver com isso

Divulgação

Em outubro de 2018, Jair Messias Bolsonaro, então no Partido Social Liberal (PSL), foi eleito presidente da República com o apoio de uma heterogênea aliança que envolvia militares, grandes capitalistas, mídia hegemônica, pastores neopentecostais e grupos extremistas que saíram do armário após as jornadas de junho de 2013. Na época, o mais importante era evitar uma vitória do PT, independentemente das contradições existentes entre os setores que se uniram à candidatura do PSL.

Enquanto a imprensa internacional se mostrava perplexa pelo fato de o tolerante, alegre e receptivo povo brasileiro ter escolhido um nome de extrema-direita, conhecido por declarações misóginas, racistas e homofóbicas, a mídia brasileira, mais otimista, considerava que o polêmico Bolsonaro, ao chegar ao poder máximo da nação, seria facilmente controlado, “colocado na linha” e, o que é mais importante, executaria a agenda neoliberal de Paulo Guedes.

A própria definição de Bolsonaro como um político de “extrema-direita” – amplamente utilizada em órgãos da imprensa internacional de diferentes direcionamentos ideológicos como The GuardianFinancial Times e New York Times – jamais foi utilizada pela grande mídia brasileira.

Um editorial do Estado de S.Paulo, publicado no início do segundo turno, traduzia bem o pensamento das classes dominantes sobre as chapas do PSL e do PT. Apesar de reconhecer a truculência de Bolsonaro, o texto alertava sobre o risco de Haddad, “porta-voz daquele presidiário [Lula], desfazer privatizações, restaurar o regime de exploração do petróleo que arruinou a Petrobras e acabar com a reforma trabalhista, entre outras barbaridades”.

O fato de a mídia, unanimemente, ter aderido à campanha de Bolsonaro (mesmo de forma envergonhada) não foi algo surpreendente. Conforme a história nos mostra, para o grande capital (de quem a imprensa hegemônica é o principal porta-voz) não importa se o poder político estiver nas mãos de um “democrata” como Fernando Henrique Cardoso ou de um “extremista” como Jair Bolsonaro: o importante é garantir a manutenção dos lucros. O capital não pode parar.

No entanto, os resultados negativos na área econômica e, principalmente, as atitudes irresponsáveis do presidente em relação à pandemia do coronavírus demonstraram cabalmente a total incapacidade de Bolsonaro para comandar o Brasil.

Diante dessa realidade, tornou-se imprescindível para a grande mídia desvincular-se totalmente da imagem do presidente e esconder de todas as formas o seu apoio ao ex-capitão durante a última campanha eleitoral (assim como feito em relação a Fernando Collor, na década de 1990). Lembrando Marx, “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

Bolsonaro virou o “filho feio que não tem pai”. No jornal O Globo, Miriam Leitão falou abertamente em impeachment. Para Cristiana Lôbo, Bolsonaro age como se ainda fosse deputado ou estivesse em campanha. Por sua vez, Merval Pereira (também conhecido como “a voz de Deus”, por ser um dos poucos jornalistas com acesso direto à família Marinho) chamou Bolsonaro de “mentiroso”, “despreparado” e “irresponsável”.

Ironicamente, como bem lembrou Jeff Benício, articulista do Portal Terra, “durante a campanha eleitoral de 2018, Merval não disfarçava certo entusiasmo com o então candidato do PSL ao falar dele no Jornal das 10 e no programa Central das Eleições”. Parafraseando um clássico ditado popular, a mídia, que ajudou a “parir” Bolsonaro, agora não quer mais embalá-lo.

Também é importante ressaltar que os discursos raivosos de articulistas midiáticos que associavam práticas de corrupção apenas ao setor estatal (principalmente ao PT) forneceram os combustíveis simbólicos necessários para o ódio à política e a consequente ascensão de movimentos de extrema-direita, como o bolsonarismo.

Os mesmos órgãos de comunicação que, hoje, estão indignados com agressões a jornalistas e profissionais de saúde, há apenas alguns anos foram negligentes com as execrações públicas de pessoas ligadas à esquerda.

Como já dizia Bertolt Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio. No Brasil, ela foi retirada da coleira para reforçar manifestações antipetistas (com total anuência da mídia), saiu do controle e, agora, pede intervenção militar, a volta do AI-5 e o fim do isolamento social para conter a pandemia do coronavírus.

Por outro lado, setores de nossa intelligentsia, na comodidade de seus gabinetes, preferem culpar o povo brasileiro por Bolsonaro e o bolsonarismo. Em seu blog, o professor da UFFS, Ivann Carlos Lago, afirmou que “Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país […]. Preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto […]”.

No entanto, se fôssemos nos limitar aos números, já teríamos argumentos suficientes para refutar a tese preconceituosa do professor. Bolsonaro não foi eleito pela maioria dos eleitores. Somados, os votos de Haddad, brancos, nulos e abstenções superaram a votação de atual presidente. Além do mais, segundo pesquisa do Datafolha, corresponde a apenas 12% da população brasileira o núcleo duro de entusiastas de Bolsonaro – isto é, que votou nele no último pleito, classifica sua gestão como ótima ou boa e diz confiar muito nas suas declarações.

Não é preciso recorrer ao histórico “culturalismo vira-lata”, que insiste em inferiorizar o povo brasileiro, para entendermos a vitória eleitoral de Bolsonaro. O que levou o Brasil a eleger seu primeiro presidente de extrema-direita foi simplesmente o fato de que o candidato preferido da maioria do eleitorado, Luiz Inácio Lula da Silva, não pôde disputar o pleito presidencial.

Desde o início de seu mandato, Bolsonaro tem feito um governo totalmente coerente às suas ideias e à sua trajetória enquanto homem público: flertes com autoritarismo, divulgação de fake news, desdém pela vida alheia, ataques à educação pública e negação do conhecimento científico.

Os principais grupos midiáticos do país tinham plena consciência dessas questões, mas embarcaram na chapa do PSL em nome do “Deus mercado”. Agora, todos nós aguentamos as consequências.

Lembrando as palavras de Michiko Kakutani em seu livro A morte da verdade, se buscarmos escritos e fatos históricos, podemos visualizar melhor o presente e o que ainda está por vir. Antes de subir ao poder, Hitler era tido como um “agitador antissemita” e a “ameaça comunista” era considerada um mal maior. Não obstante, muitos cidadãos alemães e jornais acreditavam que Hitler “certamente abandonaria sua vulgaridade” e o movimento nazista “ruiria em pouco tempo”.

Como bem tragicamente sabemos, não foi assim que a história terminou. Qualquer semelhança com o nosso atual contexto não é mera coincidência.

Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ. Autor dos livros A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes (parceria com Vicente de Paula Leão) e 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático, ambos pela editora CRV.

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