Opinião

O papel da agricultura familiar na construção de uma nova agenda agroalimentar

Assis do Couto

Consultor em Soluções Sustentáveis, Agricultura Familiar e Economia Solidária

Um dia de imersão no mundo da agricultura familiar do pequeno município de Seara, região Oeste de Santa Catarina, é o suficiente para perceber o potencial e a importância do setor para o desenvolvimento da região. A produção sustentável e organizada através de cooperativas de crédito e de produção garantem qualidade de vida, geração de emprego e renda, inclusão social e oferta de produtos diferenciados à população, elementos fundamentais para a construção de uma nova Agenda Agroalimentar.

Com cerca de 17 mil habitantes, Seara possui mais de 150 agroindústrias familiares que produzem mais de 200 produtos de forma diferenciada. “São mais de 40 agroindústrias familiares, duas cooperativas de agroindústrias com mais de 40 unidades familiares cada, tudo isso para fazer com que o desenvolvimento aconteça. Nós temos mais de 200 produtos com rótulos, aprovados, tudo certinho. Essas duas cooperativas juntas geram mais de 200 empregos diretos. São pessoas que deixaram de disputar emprego na Seara Alimentos e no comércio para gerar emprego no interior”, ressaltou o agricultor familiar Aquelino Deitos.

Além da produção de alimentos, o turismo rural também recebe o apoio e incentivo das cooperativas. Uma das rotas turísticas, a Saberes e Sabores, é iniciada justamente no “Sítio Cheiros e Sabores”, de propriedade de Aquelino Deitos. Certificada há 20 anos como propriedade orgânica pela rede Ecovida, o sítio possui 12,5 hectares e é apresentado como modelo de propriedade Agroecológica. Atualmente, a maior produção é de batata doce e hortaliças. Porém, a produção de morangos orgânicos, que já foi um dos principais produtos, está sendo retomada.

A rota turística Saberes e Sabores é finalizada no Eco Sítio Lindo, com uma apresentação de teatro da Meninas Arteiras Cia de Artes, um grupo que promove o teatro rural e encanta os olhos, o coração e a alma de quem tem a oportunidade de conhecer.

A produção de leite e queijos também é forte junto à agricultura familiar. Em uma das propriedades visitadas, o produtor de leite integra pastagem com produção de nozes e usa o mínimo necessário de silagem, garantindo assim o bem-estar animal e um produto diferenciado.

Uma outra experiência pioneira na região é a produção de queijos em containers. Uma unidade demonstrativa foi instalada na propriedade de Leonardo e Luana Lorenzetti, na linha São Pedro. Com o registro do Serviço de Inspeção Municipal desde dezembro de 2018, o laticínio Nova Milano iniciou com uma produção de 350 litros de leite por dia, porém, já está se preparando para aumentar para mil litros/dia.

Uma das grandes vantagens do projeto, segundo o idealizador, médico veterinário aposentado Clair Lorenzetti, é o baixo custo e a facilidade para transportar a planta, caso seja necessário. O container tem peças de inox, o que facilita a higienização e um espaço suficiente para a atividade, cerca de 12 metros de comprimento por 2,4 m de largura.

Os projetos de bioconstrução também têm espaço junto às propriedades da agricultura familiar. Várias biocasas foram construídas prioritariamente com materiais encontrados na propriedade. Entre elas, destaca-se a de Adair e Lucila Jachi. Com 290 m², a casa é uma combinação de várias técnicas, entre as quais: pedras, madeira, pau a pique, telhado verde, bambu, além de aquecedor solar e biodigestor, que fornece todo o gás utilizado na cozinha.

Outra biocasa visitada foi a da família de Altair Gross. Construída em formato de espiral, ela possui 194m² divididos em três pisos.  Além da economia com os materiais, a mão de obra utilizada foi da própria família, que contou também com a colaboração de vizinhos. O projeto ganhou destaque e não são raras às visitas à propriedade.

A maioria dos produtos oriundos da agricultura familiar são comercializados no município. Um dos pontos onde é possível encontra-los é a Casa Colonial, um espaço que reúne grande diversidade de produtos e está localizada no centro da cidade. Em frente à Casa Colonial, também é realizada a feira orgânica aos sábados. Mas os produtos também chegam até o consumidor, que muitas vezes não tem tempo de ir à feira ou à Casa Colonial, de uma forma bem tradicional: de porta em porta.

Chama atenção o papel decisivo da cooperativa de crédito, que em 25 anos foi e continua sendo uma ferramenta importante nas mãos dos agricultores familiares para possibilitar esse sucesso. Ou seja, diante dos desafios da construção de uma nova Agenda Agroalimentar, se faz necessário unir o crédito com o desenvolvimento local através de empreendimentos viáveis e sustentáveis.

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