Opinião

A volta da contabilidade criativa

Mario Eugenio Saturno

O Diário Oficial da União do último 4 de novembro trouxe um decreto assustador do ministro da Ciência e Tecnologia, um corte brutal nos gastos, incluindo o cafezinho... Se o Ministério não tem dinheiro para o cafezinho, conseguirá fazer um satélite científico Equars de cem milhões? Ou ainda um satélite radar para os militares e civis de 600 milhões? Difícil... E eu fico a pensar em como a Argentina, que vive uma crise pior, consegue fazer satélites de R$ 1 bilhão?
 
Fui ao supermercado e fiquei estupefato com o grande aumento de preços, ao redor de 20%. Por qual motivo? Não teve quebra da agricultura mundial, muito menos do gado, suínos ou galináceos. O que varejistas ou atacadistas estão vendo que nós não vemos?
 
Para piorar a semana, no dia 6, o tão esperado megaleilão do pré-sal foi um fracasso retumbante. A expectativa era que 12 petroleiras aparecessem, mas só a Petrobras se fez presente e com sócios chineses, que participaram com 10%, ou R$ 6,9 bilhões, e que só vieram porque o presidente Bolsonaro pediu ao chinês para que participasse. O resto do dinheiro virá de uma Petrobras quebrada. Não tem como não associar àquelas contabilidades criativas da Dilma e Mantega, algo criado para enganar algum incauto.
 
Não deixa de ser um reflexo do leilão de 10 de outubro, quando foram oferecidas 36 áreas e apenas 12 foram arrematadas. Ao menos houve grande participação de empresas estrangeiras como a Chevron, QPI, Repsol, Wintershall e Petronas. O governo arrecadou R$ 8,9 bilhões neste primeiro leilões de petróleo.
 
Para fechar a semana sinistra, no dia 7, foram oferecidas cinco áreas para leilão e apenas uma delas foi adquirida pela Petrobras e a chinesa CNODC por R$ 5 bilhões e sem ágio no volume de óleo entregue ao governo.
 
Quando ganhou as eleições, um ano atrás, as propostas para a economia pareciam difíceis de implantar-se como, por exemplo, a unificação de cinco impostos, implantação de uma alíquota única de 20% de Imposto de Renda para quem ganha mais de cinco salários mínimos, a reforma previdenciária com modelo de capitalização e a privatização e venda de ativos da União com objetivo de arrecadar R$ 1 trilhão. Não conseguiu.
 
O mais interessante era que o ministro Paulo Guedes acreditava que seria possível zerar o déficit já no primeiro ano de governo e superávit primário (quando o governo arrecada mais do que gasta, sem contar o gasto com juros) em 2020, algo que o Brasil não conseguia desde 2013, com Dilma Rousseff.
 
Há exatamente um ano, a expectativa para a cotação do dólar era de R$ 3,76 no término de 2019 e para o Produto Interno Bruto (PIB) era de 2,5%. Em janeiro deste ano, a Bolsa de São Paulo disparou e muitos otimistas projetavam o ibovespa de 140 mil pontos ao final deste ano. Chegamos no fim do ano com a reforma da previdência promulgada, mas estas previsões otimistas esvaneceram como nuvens em um céu ventanoso.
 
Em uma paráfrase de Drummond aos senadores e deputados: E agora, Jair? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, Paulo Guedes? E agora, que o Lula está solto e pode e quer fazer e acontecer.
 
 
Mario Eugenio Saturno (cientecfan.blogspot.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.
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